Curso de Extensão DESIDERIUS ERASMUS

Erasmo de Roterdã

Desiderius Erasmus, mais conhecido por Erasmo de Roterdã, é o filósofo-filólogo mais importante do séc. XVI. Ele nasceu entre 1466 e 1469 na cidade portuária de Roterdã, a segunda maior dos Países Baixos, durante o reinado de Carlos o Temerário (1433-1477), Duque Soberano da Borgonha (Duque de Brabante, Conde da Holanda e da Zelândia etc.).

erasmus
Óleo de Hans Holbein,
o Jovem (1523). Louvre, Paris.

Erasmo era o segundo filho ilegítimo de Roger Gerard, um padre católico, e Margaret, a filha de um médico. Não há maiores detalhes sobre eles, que parecem ter morrido cedo, talvez por causa da peste de 1483. Erasmo foi educado juntamente com seu irmão pelo movimento de leigos “Irmãos da Vida Comum”, que preparava os meninos para a vida monacal. Segundo ele, tratava-se de grupo ultra severo, que incutia às crianças a humilhação e não a humildade.

Sem nenhuma escolha, ele e o irmão partiram para monastérios: Erasmo seguiu para os cônegos regulares agostinianos de Steyn, perto de Gouda, onde ele ficou por sete anos (1485-1492). Sendo desprezado pelos seus superiores pela intensidade com que se dedicava aos estudos clássicos, ele foi ordenado em abril de 1492 e logo fugiu do mosteiro, tornando-se secretário de Henri de Berghes (†1502), Bispo de Cambrai. Este o enviou para estudos de Teologia em Paris em 1496, no Colégio de Montaigu, local que Erasmo não apreciou pelos ensinamentos escolásticos e pela alimentação ruim. Após retornar a Cambrai e à própria terra natal, Erasmo está de novo em Paris, dando aulas particulares, em 1499, quando seu pupilo, Lorde William Blount de Mountjoy (1478-1534), o convida a partir para a Inglaterra. Em Londres ele conhece Thomas More (1478-1535), de quem será amigo toda a vida, e trava contato com John Fischer (1469-1535), católicos que seriam martirizados na conturbada formação do anglicanismo. Em Oxford e Cambridge, Erasmo se torna conhecido do mundo acadêmico e leciona estudos eruditos de Grego antigo. De volta à França, ele vive de seu trabalho como humanista, viajando de Paris a Orleans, de Louvain a Roterdã etc.

Em 1503/4, ele publica em Louvain Enchiridion militis Christiani (Manual do Cavaleiro Cristão), como fruto das suas últimas leituras de Orígenes e São Paulo, em Grego. Neste livro, Erasmo incita os cristãos a crescerem na vitalidade de sua fé através das práticas evangélicas; ele também advoga que a piedade monacal que então se conhecia não era evangélica.

Em 1504, ele é encarregado de redigir o discurso de homenagem do povo de Brabante ao seu soberano, o Arquiduque Philipp (1478-1506) — “Filipe o Belo” —, que se tornara Rei de Castela, Leão e Aragão (Espanha unificada) como Dom Felipe I, pela morte dos sogros, os Reis Católicos.

Em 1505, estando com seus amigos teólogos de Louvain, ele edita e prefacia as Adnotationes in Novum Testamentum, do grande latinista Lorenzo Valla (1405-1457). Ainda no mesmo ano, ele volta para a Inglaterra e é apresentado ao Arcebispo da Cantuária, William Warham (c. 1450-1532), que o designa para preceptor de Alexander Stuart (1490-1513), bastardo de James IV da Escócia que foi feito Arcebispo de Saint Andrews aos 15 anos. Em 1506, finalmente ele vai para a Itália; em Turim, ele é agraciado com o título de doutor em Teologia.

Viaja por Florença e Bolonha, onde assiste à entrada triunfal do Cardeal Giuliano della Rovere (1443-1513) como Papa Júlio II e faz uma sátira anônima ao personagem, sabidamente vaidoso, orgulhoso e autocrático. Depois ele se estabelece em Veneza, onde começa a publicar seus Adágios. Ele retorna à França, passando por Pádua e Siena. Recebe de Júlio II uma liberação dos votos professados e é chamado, em 1509, à corte de Henry VIII (1491-1547), que adorava seus trabalhos. Crê-se que foi durante esta viagem que ele escreveu sua obra mais célebre, o Moriae Encomium (Elogio da Loucura).

Em 1513, após sua estadia inglesa, ele retorna ao Continente e viaja pelo Sacro Império Romano-Germânico. Em 1514, por influência do Grão-Chanceler da Corte de Brabante, Jean Le Sauvage (1455-1518), ele é feito conselheiro e professor do Arquiduque Karl (Charles/Carlos) — Dom Carlos I de Espanha em 1516 e futuro Carlos V (1500-1558). Por essa época escreve Institutio principis Christiani (A Educação do Príncipe Cristão) e Querela pacis para o seu imperial-e-real pupilo.

Após uma nova estadia na Ilha Britânica, ele vai para a Basiléia (Suíça), em 1521, onde se encontra com os humanistas OEcolampade, Beatus Rhenanus, Glareanus e os impressores Froben e Amerbach, o pintor Holbein etc. Em 1529, a Reforma Protestante triunfa na Basiléia e Erasmo se retira para Friburgo-em-Brisgau, mas ele não encontra paz no lugar, pois os reformadores começam a persegui-lo por sua não-adesão. Em 1534, o Papa Paulo III (1468-1549) concede-lhe uma pensão como Prior honorário de Deventer e ele intenciona retornar aos Países Baixos, mas se prende em Basiléia, para acompanhar a impressão de uma nova versão sua do Eclesiastes, livro filosófico-didático da Bíblia que se atribui ao predicador Rei Salomão (c. 1009-922 a.C.).

Afligido pela gota no inverno de 1535-36, Desiderius Erasmus — ou seja, aquele que é o “desejado muito amado” —, nascido como reles“bastardo de padre”, termina seus dias sapiencial e melancolicamente, seguido por amigos e discípulos, trabalhando num comentário sobre o Salmo XIV e sobre um texto de Orígenes de Alexandria (185-253) e falece na madrugada de 11 para 12 de julho de 1536.

Seus executores testamentários foram Boniface Amerbach, Jérôme Froben e Nicolas Episcopius. Erasmo legou tudo que tinha “aos pobres velhos e enfermos, aos jovens órfãos e aos adolescentes de boa esperança”. Toda a Basileia o pranteou e acompanhou seus funerais na Universidade. Ele jaz na Catedral da Basileia, chamada de Münster pelos suíços.

Erasmo de Roterdã pode e deve ser tido como um dos maiores educadores de todos os tempos. Moderadíssimo, nunca aquiesceu aos postulados de Martinho Lutero (1483-1546) de forma integral, chegando a ver farisaísmo em muitos dos princípios protestantes; por outro lado, foi sempre um tenaz combatente da ignorância e da corrupção dos clérigos católicos de seu tempo. Suas últimas palavras foram “Lieve God” (Querido Deus, em neerlandês).

Seu best-seller sobre a educação das crianças e dos adolescentes foi publicado postumamente: De civilitate morum puerilium libellus. Margareth Visser (1998) considera a obra atualíssima e lembra que apesar do próprio autor explanar que a preocupação com as boas maneiras representa a crassissima pars da filosofia, a etiqueta é o sinal externo daquilo que deve constituir a polidez verdadeira e introjetada.