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Das similitudes entre índios e príncipes – 10.07.2015

Bruno da Silva Antunes de Cerqueira

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Atawallpa (1507-1533), 14º Sapa Inca (1532-1533), soberano do império indígena andino assassinado pelos conquistadores espanhóis. Imagem do Brooklyn Museum, Nova York.
Atawallpa (1507-1533), 14º Sapa Inca (1532-1533), soberano do império indígena andino assassinado pelos conquistadores espanhóis. Há etnólogos brasileiros e estrangeiros que pesquisam as estruturas hierárquicas das sociedades indígenas pré-colombianas que existiram no território em que se transformaria o Brasil, no XIX. As pesquisas tentam fazer com que se escape da chamada “régua andina”, pela qual os Índios do Brasil eram consideradores “inferiores” a seus parentes americanos.
Imagem do Brooklyn Museum, Nova York.

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O mundo contemporâneo não abandona seus paradoxos. Quer-se evoluído, livre das amarras do preconceito e de tudo que considera “arcaico” e “ultrapassado”.

No presente artigo, ensaístico como os demais que apresento neste Blog, volto-me à percepção que me acompanha, de modo rudimentar, desde antes de entrar no indigenismo de Estado brasileiro, na Funai. Trata-se das similitudes entre índios e príncipes; semelhanças correlacionais, por suposto. Inusitado? Nem tanto.

Índios, tal como príncipes, nascem em “grupos” ou “famílias”, a proto-sociedade de todos os demais humanos — o jargão cristão-católico aprecia muito o conceito de célula mater social. Mas nascem diferentes. Nascem com uma marca de ancestralidade muito visível e aparente socialmente: carregam em seus prenomes e nomes séculos ou milênios de tradições. Pertencem a um mundo de “antanho”. É como se fossem anacronismos ambulantes. Tendo chegado ao século XXI, são tidos e havidos, por muitos, como gente que não mais deveria existir. Por quê?

Somos legatários de séculos de arrogância iluminista. De nossos antepassados do XVIII herdamos a ideia de que os 1000 anos entre o fim do Império Romano do Ocidente (476 d.C.) e a queda de Constantinopla (1453) constituem uma “Idade Média”, cheia de monges obscurantistas, reis pantagruélicos, servos boçalizados, guerras insanas. Dos mesmos autointitulados “seres iluminados” herdamos a ideia de que toda diferença sociogenealógica é uma aberração e deve ser combatida e eliminada.

É da linhagem intelectual dos intérpretes e seguidores de um Rousseau (1712-1778), um Diderot (1713-1784), um Babeuff (1760-1797), um Robespierre (1758-1794), um Danton (1759-1794), para ficar só na tradição francesa, sem falar das correntes ibérica, germânica e itálica, que no XIX surgirá o pensamento, por exemplo, de Karl Marx (1818-1883). O filósofo prussiano, a despeito de seu gênio, inegável, errava em numerosas análises sociais, ao citar termos históricos e não esmiuçá-los: tanto em O 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852), quanto em O Capital (1867) e outros textos, o pai do comunismo ou do “socialismo científico”, como ele mesmo intitulava seu pensamento, confundia a realeza e a nobreza, ao falar dos percursos nacionais europeus. Ora, conforme sempre tentamos apontar, as realezas e as nobrezas não se confundem, historicamente, sob diversos aspectos, haja vista a diferença de interesses políticos e econômicos entre elas. São classes, ou grupos sociais, distintos, muito embora haja relações de parentesco relativamente mais próximas entre um nobre hereditário e um príncipe do que entre este e um comum. A genealogia social, e a genealogia dinástica em particular, podem elucidar com bastante precisão as diferenciações.

Voltando aos índios e aos príncipes nos dias atuais, depara-se com verdadeiro asco quanto a sua existência. Por que deve haver índios e direitos territoriais específicos para eles, no Brasil e no restante das Américas? Donde advém a ideia de que os indígenas são cidadãos distinguidos, que podem gozar de “regalias e privilégios”, que os demais cidadãos não gozam? Quanto aos príncipes, quem são esses extraterrestres que se acham superiores pelo nascimento, pois gerados em famílias reais, sejam elas ainda soberanas ou, pior ainda, destronadas? Por que, no caso brasileiro, têm direito a laudêmios e foros em Petrópolis (?) — já ouvi de civilistas que os Orleans e Bragança têm direitos “territoriais” sobre toda a Região Serrana fluminense, quando somente o 1º Distrito da antiga cidade de vilegiatura pertence à enfiteuse. Donde advém essa acintosa concessão de “regalias e privilégios”? De chofre eu respondo: do Direito e da História. Mas também não minudencio, para provocar o leitor.

O Arquiduque Otto (1912-2011), Chefe da Casa da Áustria e, de jure, mas não de facto, o monarca de todos os povos apartados pela dissolução do Império Austro-Húngaro no pós I Guerra Mundial, certa vez declarou, em entrevista, na década de 1970, que seus filhos tinham um grave defeito: eram Habsburg. Ser um Habsburg seria sinônimo, em suas palavras, de rechaço, desprezo, repulsa gratuita, inimizade feroz. Ele mesmo foi apátrida durante décadas, pelo fato de Adolf Hitler (1889-1945) ter-lhe cassado a cidadania austríaca em 1941, em manifestação de ódio a sua pessoa e a sua posição dinástica.

Tentemos digressionar, aqui, sobre as motivações do preconceito e do asco para com índios e príncipes. Por que o nascimento e a inserção em uma cultura cheia de especificidades podem fazer de alguém um indivíduo diferente dos demais? Porque a despeito de nosso igualitarismo tosco e mal resolvido, diretamente caudatário de alguns dos teóricos que citei, mas não somente baseado neles, somos todos diferentes. E o nascimento em uma etnia indígena, assim como em um clã principesco, de fato faz de alguém uma pessoa diferente. Repugna-lhe a ideia, caro leitor? Revolta-lhe, em seu burguesismo, ou em seu comunismo residual, saber que em plena democracia — ou no acalentado Estado Democrático de Direito, que pode dar azo a tantos sofismas — ainda possa haver gente diferenciada pelo “berço”? Pois reforce sua indignação. Ela tem razão de ser. Veja o que diz a respeito de comunidades tribais da Índia o citado Karl Marx, no artigo A Dominação Britânica na Índia, publicado no New York Daily Tribune, em junho de 1853:

Ora, por mais triste que seja do ponto de vista dos sentimentos humanos ver essas miríades de organizações sociais patriarcais, inofensivas e laboriosas se dissolverem, se desagregarem em seus elementos constitutivos e serem reduzidas à miséria, e seus membros perderem ao mesmo tempo sua antiga forma de civilização e seus meios de subsistência tradicionais, não devemos esquecer que essas comunidades villegeoisies idílicas, malgrado seu aspecto inofensivo, foram sempre uma fundação sólida do despotismo oriental, que elas retêm a razão humana num quadro extremamente estreito, fazendo dela um instrumento dócil da superstição e a escrava de regras admitidas, esvaziando-a de toda grandeza e de toda força histórica. Não devemos esquecer os bárbaros que, apegados egoisticamente ao seu miserável lote de terra, observam com calma a ruina dos impérios, as crueldades sem nome, o massacre da população das grandes cidades, não lhes dedicando mais atenção do que aos fenômenos naturais, sendo eles mesmos vítimas de todo agressor que se dignasse a notá-los. Não devemos esquecer que a vida vegetativa, estagnante, indigna, que esse gênero de existência passiva desencadeia, por outra parte e como contragolpe, forças de destruição cegas e selvagens, fazendo da morte um rito religioso no Hindustão. Não devemos esquecer que essas pequenas comunidades carregavam a marca infame das castas e da escravidão, que elas submetiam o homem a circunstâncias exteriores em lugar de fazê-lo rei das circunstâncias, que elas faziam de um estado social em desenvolvimento espontâneo uma fatalidade toda poderosa, origem de um culto grosseiro da natureza cujo caráter degradante se traduzia no fato de que o homem, mestre da natureza, caia de joelhos e adorava Hanumán, o macaco, e Sabbala, a vaca.

O trecho revela o positivismo, o cientificismo e o evolucionismo que pesam sobre a escrita marxiana, posto que não deixe de denotar algum humanismo difuso de que compartilhasse com seus coetâneos. Isto porque, em outros libelos e manifestações, Marx repelirá o próprio humanismo como “burguês”.

Mas voltemos às similitudes de índios e príncipes, essas duas categorias tão problemáticas, tão arbitrárias — como de resto são todas as que os historiadores, advogados, sociólogos, antropólogos e cientistas políticos engendramos —, mas que nos ajudam a compreender fenômenos sociais.

Índios e príncipes são endogâmicos. Uma geração ou outra pode praticar a exogamia, mas a tendência é a endogamia. Sem entrar aqui nos intricados estudos antropológicos que tão bem sabem discernir sobre endogamia e exogamia nas diversas etnias ameríndias existentes e nas diversas categorizações relacionais desse fator reprodutivo social, a verdade é que o casamento de índios com índias e de príncipes com princesas ajudou, e ajuda, a reforçar o imaginário de que são grupos que gostam de se manter diferentes. Isso é verdade, mas não é verdade plena. Por exemplo, no caso dos príncipes do “Velho Continente”, a genealogia dinástica auxilia fortemente na comprovação de que eles são tão miscigenados quanto são as demais pessoas: a diferença é sempre de escala. A tendência é que os Wettin, os Oldenburg, os Bourbon, tenham evidentemente muito menos avós do que seus concidadãos, dado o implexo dos ancestrais — que meu amigo Pe. João Dias Rezende Filho acaba de resumir aqui — mas isto não significa que não sejam primos distantes de “seus” próprios povos e dos de além-mar.

Fato curioso e importante a assinalar na presente abordagem é que a futura rainha sueca, Victoria (*1977), a futura rainha neerlandesa, Catharina-Amalia (*2003), e o futuro grão-duque luxemburguês, Guillaume (*1981), são todos descendentes diretos de caciques ameríndios, e de não caciques também, visto que suas mães são latino-americanas — sendo a Rainha-Consorte Silvia da Suécia (*1943) alemã pelo pai e brasileira pela mãe, uma décima-quarta neta do Cacique Tibiriçá (†1592), como já comentei em artigo anterior.

Tal como os índios, os príncipes são, em um mundo capitalista e burguês, representantes de tradições imemoriais, das mais diversas matrizes culturais. São gente igual a todo mundo? Evidente. Mas, relembrando as boas lições aristotélicas, ressignificadas pela filosofia tomista, são essencialmente iguais a todos os demais homens e mulheres, mas são contingencialmente diferentes da maioria. E por mais que sonhem os igualitaristas enragés que um dia deixarão de ser diferentes, tudo indica que não deixarão.

Obrigados a viver e a atuar socialmente em realidades díspares, obviamente sofrem por essa condição ambígua, sinuosa e, de algum modo, “deslocada”. Não à toa tantos indígenas se veem perdidos entre aldeias e cidades, e príncipes entre palácios e apartamentos… Muitos príncipes, assim como muitos indígenas, encontram no alcoolismo, no tabagismo, e em diversas formas de drogadição e dependência, caminhos tortuosos para sobreviver à angústia existencial de que todos os humanos somos dotados, mas que seus papeis sociais lhes aguçam. Por óbvio ninguém vá dizer que eu disse que o alcoolismo é característica particular de índios e príncipes…

De outro lado, há príncipes e índios que encontram na devoção a tradições cosmológicas e ecológicas de seus ancestrais, legadas por meio dos vários sistemas filosófico-religiosos existentes, uma resposta anímica para sua função no mundo e passam a encarnar e trazer a si a liderança, às vezes discreta, mas muito simbólica, dos movimentos socioambientalistas. Quanto à importância da religião a esses grupos humanos, ela é incomensurável.

O sociólogo Max Weber (1864-1920) dizia que o mundo contemporâneo seria extremamente adverso à espiritualidade em suas formas litúrgicas mágico-religiosas. Dada a secularização e o “desencantamento do mundo”, o homem contemporâneo não mais creria em explicações não racionais ou “ilógicas”. A religião, segundo Weber, poderia continuar existindo, mas como ele alerta na obra Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1905) e na preleção A Ciência como vocação (1919), ela ganharia um papel norteador muito mais de foro íntimo do que de ementário de regras públicas de sociabilidade, como se observou nas civilizações europeias — e nas americanas — por séculos. Curiosamente, índios, tanto quanto príncipes, continuam sendo, em sua maioria, publicamente religiosos, sequer podendo prescindir de suas religiões para permanecer existindo no mundo, tal a ordem valorativa que ela ocupa em seus encaixes sociais e “atribuições” culturais.

Há diferenças entre índios e príncipes? Evidente que há. Elas se referem, mormente, ao modo pelo qual são vistos e tratados uns e outros. Engana-se, entretanto, quem pensa que os príncipes tendem a ser cercados de glamour, e os índios, relegados. Há ambientes e ambientes. Por exemplo: em ambientes monarquistas, príncipes são bajulados e reverenciados. Em ambientes ditos “republicanos”, são maltratados e desprezados — como se para ser republicano fosse necessário ser antipático e rude. Já os indígenas são bem-tratados e bem-quistos em meios indigenistas (governamentais, eclesiais, civis), mas são estigmatizados, perseguidos, e mortos (!!!) — aberração das aberrações — em espaços dominados pela ignorância neodesenvolvimentista e a sanha de ruralistas.

Este pequeno texto, contudo, realça as similitudes. Curiosamente, muitos príncipes europeus sentem-se similares, mutatis mutandi, aos tuxauas ameríndios. O Grão-Cacique Raoni (*1930), Benadjore dos Metuktire, um subgrupo do Povo Mebengokrê (“Kayapó”) e uma das maiores lideranças indígenas do Brasil, é recebido na Europa Ocidental — composta, em sua maioria, de monarquias parlamentaristas —, quase como um “monarca” amazônico.

Exemplo vívido é o do Rei Harald V da Noruega (*1935), que veio ao Brasil em abril de 2013, a convite do Grão-Pajé Davi Kopenawa (*1956), do Povo Yanomami. Parece que ele desprezou admoestações de diplomatas brasileiros e noruegueses e passou quatro dias na Aldeia Watoriki, na Terra Indígena Yanomami, no Estado de Roraima, como se vê neste vídeo. Muito interessantemente, deixou de presente aos Yanomami um álbum de fotos de família: seus pais, avós, irmãs, tios, que são, com efeito, uma enormidade de primos-irmãos e primos-sobrinhos casados entre si… Harald V é o primeiro a praticar exogamia em sua linhagem, após séculos de endogamia.

Antes do rei norueguês, na década de 1960, seu tio, o Rei Leopold III dos Belgas (1901-1993), visitou inúmeras comunidades indígenas no Mato Grosso e na Amazônia, inclusive em companhia dos irmãos Villas-Boas. Isto sem falar na boa quantidade de príncipes naturalistas do XIX — entre os quais se destacou Maximilian de Wied-Neuwied (1782-1867) —, sempre ávidos por conhecer as culturas indígenas.

Não estou alegando, todavia, que os príncipes europeus sejam, necessariamente, amiguinhos dos povos ameríndios e que deixem de representar, também, os interesses de seus países. A análise aqui, percebe-se logo, é bem mais psicossocial do que internacionalista. É uma realidade o fato de que muitos monarcas e príncipes europeus se sintam bem e, de algum modo, se identifiquem, em meio a comunidades indígenas, mundo afora. A realeza britânica, que comanda a Commonwealth e cuja chefe reina em dezesseis países do globo, visita comumente seus súditos caribenhos, africanos, oceânicos e asiáticos. Sem-número a quantidade de vezes em que Elizabeth II (*1926), ou seu marido, filhos e netos, participam, com entusiasmo, de cerimônias e solenidades indígenas. E se aprazem em hospedar e relacionar-se com as realezas e chefaturas tribais do outrora poderoso Império Britânico. Assim é que na própria coroação de Elizabeth II, em junho de 1953, a Rainha Salote de Tonga (1900-1965) foi extremamente festejada em Londres, por sua indiscutível afabilidade e presença de cena — a “exoticidade” do olhar colonial e etnocêntrico não impede, per se, a admiração, humanamente falando, mesmo que possa enviesá-la.

Tal como os índios, os príncipes, sejam os da Europa, da América, da África, da Ásia ou da Oceania, se dividem — e são divididos, por terceiros — em linhagens, clãs, dinastias, intermináveis denominações genealógicas. É-lhes francamente penoso, e praticamente impossível, apartarem-se daquilo que o medievalista Marc Bloch (1886-1944), judeu francês, tão bem qualificou de pesanteur des origines, em sua Apologia da História ou o ofício de historiador, publicada postumamente, em 1949, cinco anos após seu fuzilamento pelos nazistas.

Seguir vivendo, representando tantas e tamanhas diferenças, inscritas em seus corpos, trajes, rituais, mas, sobretudo, em suas almas, é um enorme desafio para a reinvenção cotidiana dos povos indígenas ou das casas principescas. Se são “anacronismos ambulantes”, como muitos veem, são também convites ambulantes à alteridade dos demais.

Talvez a sociobiodiversidade que representam possa ajudar, em tempos de acirramento de intolerância cultural e religiosa, os não índios e não príncipes a voltar os olhos com maior carinho e atenção às tradições dos que nos antecederam.

Aguyjevete!

Aro

*Artigo publicado no Blog do IDII em julho de 2015.